Tarot Waite Rider: quando o símbolo faz morada entre técnica e intuição
por Gabriel Asencio Figueiredo
Há perguntas que a razão, sozinha, não alcança. São aquelas que vivem na dobra dos nossos silêncios, nos espaços que a linguagem linear não dá conta de nomear. Para mim, que venho da Comunicação, sempre me fascinou esse ponto onde a palavra falha e o símbolo fala.
O Tarot Waite Rider, que carrego como quem carrega um livro vivo, é uma dessas linguagens de travessia. Um livro sem lombada, dividido em lâminas que se espalham como páginas dispersas, mas secretamente costuradas por um mesmo fio arquetípico. Criado por Arthur Edward Waite e ilustrado por Pamela Colman Smith em 1909, ambos membros da Ordem Hermética da Aurora Dourada, o deck se tornou um marco justamente por devolver ao consulente as imagens, democratizando, assim, o acesso aos Arcanos Menores, antes restritos a numerais e cortes.
Para mim, o Tarot é mais do que um instrumento de adivinhação (palavra que sempre me soou redutora). Ele é uma tecnologia simbólica, uma arte de ver e de escutar camadas invisíveis. É onde minha formação em comunicação e semiótica se entrelaça com minha prática intuitiva: cada carta é um signo, mas também é um espelho.
Livro vivo de cartas
Quando falo em signo, evoco Charles Sanders Peirce. Filósofo, cientista, linguista e matemática americano, que me foi apresentado em 2009, quando entrei na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Ele me ensinou que o signo é aquilo que representa algo para alguém sob algum aspecto. No Tarot, cada figura, seja O Louco, A Imperatriz, O Pendurado, é signo, ícone e índice de experiências humanas. Nessa leitura, lembro também de Roland Barthes: o mito, para ele, não era fábula, mas uma fala, uma forma de significar o mundo. O Tarot, nesse sentido, é um campo fértil de mitologias pessoais, que se recriam a cada tiragem.
Entre técnica e intuição
Mas não é só teoria. É técnica, sim: estudo, memorização de arquétipos, compreensão das combinações, leitura atenta do encadeamento de cartas. Mas há um ponto onde a técnica cede espaço à intuição. Uma intuição que não é dom místico, mas atenção radical: uma escuta que se abre para o não-dito, para o gesto, para a emoção que se insinua entre as palavras.
Gosto de lembrar Jung, que viu nos arquétipos formas universais que habitam o inconsciente coletivo. O Tarot, para mim, é isso: uma ponte entre o pessoal e o coletivo, entre o que sabemos de nós e o que ainda ignoramos. Cada tiragem é uma espécie de convocação: o símbolo vem à tona, mas quem dá sentido é quem olha. Não existe leitura sem intérprete.
Ainda assim, é comum ver o Tarot reduzido a um instrumento de futurologia rasa. É um desperdício pensar assim. O grande poder das cartas não é prever, mas iluminar: abrir múltiplas possibilidades onde antes só havia rigidez. Talvez Walter Benjamin tenha dito isso de outra forma, quando escreveu sobre a arte de narrar: há uma potência revolucionária na escuta e na transmissão de histórias. O Tarot é, para mim, uma narrativa simbólica em estado bruto, cada consulta é uma história por vir, contada a muitas mãos.
Ecos de Jung, Barthes e Benjamin
Costumo dizer que ler cartas é um exercício ético. Não se trata de ditar destinos, mas de oferecer outras lentes para quem está pronto a enxergar. Quem lê não entrega verdades absolutas, mas devolve perguntas melhores. O papel do consulente não é ser passivo, mas protagonista, porque toda resposta, em última instância, é fabricada na intersecção entre carta, escuta e desejo.
Um espelho, um oráculo





